Como Mentir com Estatística

Alguns podem penar já terem ouvido o título de artigo em algum lugar, e estarão certos.

“Como Mentir com Estatística” foi escritor por Darrell Huff e publicado pela primeira vez, em 1954. É um daqueles livros que, a despeito do nome “marqueteiro” é despretensioso, interessante e de fácil leitura, mas vai além de uma diversão rápida.

Neste livro são ilustrados (literalmente ou graficamente) casos em que, intencionalmente ou não, dados estatísticos são usados de forma a levar os leitores a conclusões erradas ou enviesadas, e diversos são os artifícios.

Lendo recentemente diversas notícias “jornalísticas” relacionadas à questão da Reforma Trabalhista, cheguei à conclusão que estávamos mais uma vez diante de um exemplo de como Mentir com Estatística.

Em notícia divulgada pelo G1 foi produzida a seguinte arte:

A partir da leitura deste gráfico, podemos chegar a 3 possíveis conclusões:

(i)                 A entrada em vigor da Reforma Trabalhista diminuiu e vai reduzir o número de ações trabalhistas;

(ii)               Com a data da entrada em vigor da Reforma Trabalhista, todas as ações que seriam distribuídas foram antecipadas, inclusive pessoas que não entrariam com ações protocolaram suas demandas; e

(iii)              Nos dias antes da entrada em vigor da Reforma Trabalhista houve um aumento na distribuição de ações e nos dias 11 e 12 (sábado e domingo) não foram distribuídas novas ações.

Por mais tentador que possa parecer as conclusões mais complexas, como as de número (i) e (ii) possam parecer, nada muito conclusivo pode ser tirado deste gráfico, pois, como se vê, a análise é parcial e enviesada.

Por exemplo, como podemos comparar quinta e sexta-feira com sábado e domingo em termos de distribuição de ações?

Ou como podemos concluir que houve uma antecipação de demandas, se não compararmos o volume do mês de novembro de 2017 com o dos anos anteriores?

A arte divulgada pelo TRT da 2ª Região é um pouco mais completa e permite uma melhor análise:

Mas, de novo, apenas se pode concluir o que está claro, ou seja:

(i)                 Houve uma redução no volume de ações em 2017 em relação a 2016;

(ii)               Houve um aumento no volume de ações entre 12 de outubro e 10 de novembro de 2017 em relação a 2016.

Além disso podemos chegar a alguma conclusão?

Provavelmente não. O que são apenas indícios que se observado em períodos maiores (mais meses, mais anos, mais localidades) podem demonstrar uma tendência de longo prazo.

Assim, há que se ter cuidado com aquilo que concluímos a partir de dados alegadamente estatísticos. Como em afirmação atribuída ao matemático sueco Andrejs Dunkels:

It is easy to lie with statistics. It is hard to tell the truth without it.” [1]


[1] VARSAVSKY, Andrea; MAREELS, Iven; COOK, ‎Mark. Epileptic Seizures and the EE: Measurement, Models, Detection and Prediction. CRC Press, 2010, pp. 89.